A liga que realmente tem chances de sair
11 de setembro de 2023
“Todo mundo está falando na criação da liga brasileira para o futebol masculino, mas, se fosse no feminino, essa liga já teria saído”. Essa frase da Ana Lorena Marche, ex-coordenadora de seleções femininas da CBF, está ecoando na minha cabeça desde que eu a ouvi, há 3 meses, durante a sua aula no curso de Gestão de Futebol da CBF Academy.
Ontem nós tivemos a final do Campeonato Brasileiro Feminino. Corinthians e Ferroviária fizeram um jogo digno de final, com muita tensão, virada e mais um título do Corinthians, o terceiro seguido. Foram mais de 42 mil torcedores na arquibancada, recorde absoluto em uma partida de clubes de futebol feminino na América do Sul. A receita com bilheteria foi de R$ 900 mil, e esse dado me chamou muita atenção, em especial quando comparado a outro: por ter sido campeão, o Corinthians recebeu uma premiação de R$ 1,2 milhão. É óbvio que os valores não são diretamente comparáveis (a receita de bilheteria sofre muitos descontos, inclusive com taxas que voltam para a CBF e federações), mas o fato de estarem na mesma “ordem de grandeza” espanta.
É impossível conceber que a maior competição nacional de clubes no futebol feminino conceda uma premiação tão baixa. Também é impossível conceber que essa premiação só tenha sido divulgada pela CBF na véspera da finalíssima. Mas esse campeonato está cheio de coisas difíceis de conceber: o fato de que boa parte das partidas foi disputada sem transmissão nenhuma, o fato de que na última rodada da fase classificatória o Real Ariquemes não entrou em campo porque as jogadoras decidiram protestar por estarem há meses sem receber…
Conectando tudo isso com a frase do começo do texto: tudo isso que é inconcebível só acontece porque quem organiza a competição não tem a capacidade de o fazer. E eu falo isso sem a menor intenção de atacar ninguém, mas simplesmente constatando que a CBF não tem “braços” e “cabeças” suficientes pra organizar, em meio a tantas competições masculinas, uma (ou duas, se contarmos a Série A-2) competição feminina.
O futebol feminino vem crescendo no Brasil (e no mundo), isso é um fato. Mas não vem crescendo na velocidade que poderia estar crescendo porque faltam pessoas certas nos lugares certos. Alguns clubes têm excelentes projetos, e o Corinthians é sem dúvida o maior expoente disso. Outros fazem apenas para “cumprir tabela”. Mas mesmo estes teriam interesse em participar de uma competição mais organizada, mais rentável e com maior projeção.
Uma liga forte poderia valorizar ainda mais esse produto. Poderia aumentar e dar mais previsibilidade às receitas. Poderia ser o ambiente perfeito para os clubes de futebol brasileiros inovarem. Poderia, enfim, ser um ambiente de crescimento exponencial.
Ter a final transmitida pela Globo, com mais de quarenta mil pessoas no estádio, é muito bonito. Mas seria ótimo se todas as partidas tivessem pelo menos um canal transmitindo, com uma produção uniformizada, partidas disputadas em horários e locais acessíveis ao público, enfim, um produto com cara de entretenimento, não com cara de “estamos apenas cumprindo uma obrigação”. Futebol feminino não é ONG, não precisa ser tratado como tal. É uma atividade com um potencial de ser consumida por uma audiência que está disposta a pagar, com dinheiro, tempo e atenção; é um mercado que pode crescer de uma maneira diferente, sem os mesmos vícios do masculino.